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O culto ao corpo: uma análise pela perspectiva da antropologia cultural

Posted on: 25/12/2009

Por Abner Melanias

“O seu corpo é a base e a metáfora da sua vida, a expressão da sua existência. É a sua Bíblia, sua enciclopédia, sua história de vida. Tudo o que acontece com você é armazenado e refletido no seu corpo. No casamento da carne e do espírito, o divórcio é impossível.” (Gabrielle Roth)

Considerações Iniciais

O mito grego de Narciso, em que um belo rapaz deixou-se consumir diante da margem de um rio, apaixonado por sua imagem que se refletia nas águas, sem se dar conta de que era seu próprio reflexo, serve de bom exemplo para o que se pretende abordar neste ensaio: o culto ao corpo, uma análise pela perspectiva da antropologia cultural.

A valorização do individualismo abarca os conflitos do homem moderno e neste recorte, dos brasileiros que na busca por identidade se priva da interação como forma de se comunicar, fazer parte do social e só consegue achar a própria imagem, refletida no espelho da sua cultura e a implicação mais próxima é a enxergar apenas no corpo o resultado de quem ele é.

Partindo desse princípio, o culto ao corpo não pode ser entendido apenas como fenômeno moderno e sem implicações mais profundas. Sua origem remonta ao culto religioso, que segundo BOSI (2003, p.19) “dá sentido ao tempo redimindo-o da entropia cotidiana e da morte que cada novo minuto decreta sobre o anterior”. Entretanto, com o passar dos tempos o corpo, que em tempos medievais era submetido a castigos por conta do pecado, hoje representa a subjetividade da cultura contemporânea e mais, transforma-se de acordo com a massificação estética e ideológica que programas televisivos de grande audiência, como “Big Brother Brasil (BBB)” e “Dr. Hollywood” nutrem. Tal é a penetração desses programas que tanto espectadores da classe alta e média que durante algum tempo [...] “parece não ter sobrado mais nenhum espaço próprio para os modos de ser, pensar e falar, em suma, viver [...]” de acordo com BOSI (2003, p.328).

As conseqüências de um culto ao corpo na cultura de massa do Brasil alcançam a discussão antropológica por analisar as perspectivas e implicações culturais que isso representa. Como indica Stolcker:

“A modernidade da antropologia social faz dela uma ferramenta de investigação que, não obstante, deve ser ela mesma perpetuamente interrogada. Uma reflexão constante sobre os modos de pensar ‘moderno’ é inseparável da investigação antropológica” (2001: 9).

Dessa forma, é necessário entendermos como o brasileiro relaciona-se com este mundo social em que um princípio supremo é a valorização do corpo, ou a devoção (culto) ao corpo. A indústria cultural e a ênfase dada a reality-shows com essa tônica captam audiências fiéis no ciclo viciante de devoção ou adoração ao corpo, objeto de culto. Ao oferecem ao telespectador a oportunidade de ter ele mesmo um corpo perfeito, seja pela intervenção cirúrgica, seja pela atividade física, um comportamento linear se apresenta: o desejo quase que “religioso” por ter um corpo como aquele artista, aquele ex-BBB. Essa necessidade de aceitação social, parecer belo, seguro e confiante, bem sucedido alimentam as práticas da dimensão simbólica que um bom corpo representa. É necessidade imperativa, quase uma compulsão na qual se somam duas sensações poderosamente prazerosas – com a forma física alcançada e com o domínio da vontade sobre o corpo.

O culto ao corpo e a indústria

Como culto ao corpo entende-se essa relação dos brasileiros com seus corpos tendo uma única preocupação básica: o seu modelamento com objetivo de aproximá-lo o máximo possível do padrão de beleza estabelecido. Sendo assim, “o povo assimila, a seu modo, algumas imagens da televisão [...] traduzindo os significantes no seu sistema de significados” (BOSI, 2003, p. 329). O culto ao corpo, a forma física ideal é transmitido como um evangelho. Seu sistema de crenças é tão poderoso quanto o de qualquer religião. De acordo com BOSI (2003, p.324: “no caso da cultura popular, não há uma separação entre uma esfera puramente material da existência e uma esfera espiritual ou simbólica.

Além da prática da atividade física, as dietas, as cirurgias e o uso de produtos cosméticos abrangem essa esfera que deixou de ser apenas um segmento há muito tempo. Prova disso são as 151 mil foram de mama (aumento e redução) e 91 mil de lipoaspiração ocorridas apenas no ano de 2008, segundo constatação feita em pesquisa Datafolha encomendada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). O antropólogo norte-americano Alexander Edmonds, em “No universo da beleza: Notas de campo sobre cirurgia plástica no Rio de Janeiro” reflete sobre as decorrências de um novo conceito, chamado democrático, da beleza com um “direito” que é essencial para o bem-estar psicológico. A popularização da cirurgia plástica está ligada diretamente à identidade nacional, funcionando como um meio de mobilidade social. É claro que exemplos extremos servem apenas para estereotipar um conceito, porém, faz-se necessário ressaltar que o culto ao corpo pode chegar à esses limites como Angela Bismarchi que às vésperas do Carnaval de 2001, juntamente como o seu marido o médico Ox Bismarchi, (re)construiu o próprio corpo. Ângela tem próteses de silicone nos seios (255 mililitros, mais que a Feiticeira) e nas panturrilhas. Lipoesculturas foram três: no abdome, nos culotes e na cintura. Outra cirurgia plástica garantiu-lhe uma graciosa covinha no queixo. Os lábios foram engrossados com um derivado de silicone, o bioplastique. Na testa, ela faz, com freqüência, aplicações de Botox. Fora essas intervenções radicais, ela tem um arsenal de truques mais corriqueiros: lentes de contato verdes (ou azuis), cabelos alongados com a técnica do megahair, unhas postiças de porcelana e dentes submetidos a um processo de branqueamento. Para completar, Ângela faz bronzeamento artificial em todo o corpo.

Apesar dos exageros ao que o exemplo anterior faz alusão, o cuidado faz sentido já que:

(…) a boa forma passa a ser considerada uma espécie de melhor parte do indivíduo e que, por isso mesmo, tem o direito e o dever de passar por todos os lugares e experimentar diferentes acontecimentos. Mas aquilo que ainda não é boa forma e que o indivíduo considera “apenas” o seu corpo torna-se uma espécie de mala por vezes incomodamente pesada, que ele necessita carregar, embora muitas vezes ele queira escondê-la, eliminá-la ou aposentá-la. Durante séculos o corpo foi considerado o espelho da alma. Agora ele é chamado a ocupar o seu lugar (…) (Sant’Anna, 2001, p. 108).

Os médicos americanos Peter Brown e Vicki Bentley-Condit, no artigo “Cultura, evolução e obesidade”, publicado no livro Manual da Obesidade, a mais nova bíblia sobre o assunto, dizem que o controle do corpo se tornou quase uma questão de boas maneiras: “Nossa cultura de valorização da magreza transformou a obesidade em um símbolo de falência moral”. Denota descuido, preguiça, desleixo, falta de disciplina. Também denota pobreza, como eles ressaltam, com base em pesquisas. “Nos países desenvolvidos, quanto mais alta a classe social, menores os índices de obesidade nas populações de homens, mulheres e crianças”, explicam os médicos americanos. “Nas baixas estrações sociais é o contrário que ocorre.” Um levantamento feito pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro em 1996 mostrou que os índices de obesidade entre os pobres eram 20% superiores aos das classes A e B.

A cultura de massa é exemplificada pelas inúmeras revistas como “Boa Forma” e “Men’s Health”, verdadeiros manuais de orientação, fornecendo conselhos e dicas sobre a manutenção desse corpo. Segundo Bosi (2003, p.330), “[...] essa indústria cultural é a que nos penetra mais assiduamente, nos invade, nos habita e nos modela”. A mídia, contemplada pela revista, propicia a recepção desses conteúdos como fontes da verdade, ou seja, são reguladores, como os programas de televisão, de como o brasileiro se vê, qual a imagem que faz de si mesmo. O dinamismo capitalista se revela na lógica da indústria cultural que ao mesmo tempo em que faz a mediação entre a sociedade (as tendência, valores, padrões relativos ao corpo) fornece os produtos que serão por ela consumidos. Os bens simbólicos como revistas, livros, vídeos de atividades físicas são o reflexo do consumo cultural existente entre a camada da população que compra a ideia do corpo perfeito.

Ideologia e relatos

A ideologia existente no culto ao corpo revela-se na doutrina ou sistema de valores que a indústria cultural explora. Por outro lado, o processo social no qual os brasileiros definem e modelam suas vidas deve ser entendido como a busca pelo estilo (estética corporal) que lhe facilitará a inclusão em diversos grupos sociais. Tomando como alvo o grupo formado por freqüentadores de academia, o relato abaixo de um obeso (homem, 1,79 de altura, 113,00 Kg) ao entrar numa academia de classe média no Jardim Anália Franco em São Paulo, reflete como a aceitação passa pela observação do culto ao corpo:

“Ao entrar na academia o instrutor me indicou uma esteira no fundo do salão onde precisaria empreender 30 minutos para gastar “essas gordurinhas” segundo ele. Apesar de ter mais de 40 esteiras desocupadas distribuídas fui à esteira por ele indicada. Depois do tempo estipulado, recorri novamente ao instrutor para seguir adiante com as atividades físicas, porém ele estava ocupado com seis jovens que se exercitavam em aparelhos de musculação, mas que já possuíam um corpo bem malhado. Durante três semanas o mesmo tratamento distanciado perdurou. Quando decidi confrontar o tratamento a mim dispensado, a atendente da academia me indicou uma clínica de estética perto dali, onde com certeza uma lipoaspiração resolveria o problema (não sei qual exatamente ela se referiu) e, depois de recuperado poderia voltar a me exercitar com a máxima atenção dos instrutores que evidentemente davam maior atenção ao “programa de atividades” que aquelas pessoas que já tinham um corpo malhado necessitava. ” A.M. 29 anos.

Assim como podemos considerar a beleza como um valor associado à civilização, o culto ao corpo é aspecto intimamente ligado a preocupação moderna. O brasileiro se vê na responsabilidade de desenhar seu próprio corpo, não como forma de se manter saudável, mas sim para definir sua identidade. E com isso, a questão alimentar e a de vestuário devem ser esclarecidas: quanto à questão alimentar ou dietética que abrange a discussão sobre o culto ao corpo se faz necessária para evidenciar os mecanismos dessa indústria cultural. O que orienta o brasileiro na escolha dos alimentos não é, necessariamente, de ordem fisiológica e sim cultural. O corpo perfeito necessita de uma alimentação ideal, o que exclui delícias da comida típica brasileira implicando em uma boa dose de sofrimento àqueles que são devotos de um corpo idealizado. Em se falando da questão do vestuário, observa-se os números cada vez maiores de assinantes de revistas femininas como “Marie Claire” e a audiência de programas como “Esquadrão da moda” este último dedicado a doutrinar uma camada da população que não sabe se vestir, ou no jargão que costumam usar, erros cometidos pelas vítimas da moda. O que se quer dizer na verdade é uma verdadeira crítica àqueles que vestem roupas percebidas como inadequadas ao seu corpo. A indústria cultural da moda faz na verdade mais vítimas ao utilizarem um único padrão estético. A salvação? Os consultores da moda, de revistas ou programas especializados. Dão dicas sobre quais modelos, cores ou estampas apropriadas são importantes para disfarçar as suas formas.

O relato a seguir é de uma mulher de 26 anos (1,65 de altura e 83 Kgs) numa compra realizada em um grande shopping da zona oeste da cidade de São Paulo:

“Convidada a participar de um evento noturno me lancei a busca de um modelo para a ocasião. Me dirigi ao shopping com o intuito de comprar um vestido nesta loja, notadamente criada para este fim. Ao chegar achei estranho não ser abordada por nenhuma vendedora, mas depois de dez minutos resolvi buscar alguma para que me auxiliasse. Para minha surpresa, depois do boa tarde recebi um “não temos nenhum tamanho para você, querida” antes mesmo de provar qualquer peça. Fora o constrangimento, o olhar de desaprovação quanto a minha forma foi horrível. Até hoje não me recuperei do choque”. R.D 26 anos.

O culto ao corpo começa a dar sinais de que não é apenas uma prática de determinado grupo, passou a ser uma linha de padronização seja na moda, alimentação ou no que denominam estética.

A questão histórica brasileira

Os padrões de beleza sofrem há milênios a influência da cultura. O desejo de diferenciação social, segundo estudiosos, tem papel fundamental na definição do que é belo: quanto mais afastado dos estratos subordinados e mais próximo das elites, mais bonito se é. “A polaridade, no caso da beleza corporal, enraíza-se em uma profunda rede de exclusões. Inacessível à maioria, o belo é um signo de distinção social para poucos”, afirma a historiadora Maria Angélica Soler, da PUC de São Paulo em entrevista à revista Veja em fevereiro de 2008. A história do Brasil oferece exemplos: no final do século XIX, mulheres acima do peso como dona Domitila de Castro, a marquesa de Santos por quem dom Pedro I ficou apaixonado, estavam longe de ser consideradas fora do padrão. Corpos cheios, braços roliços e seios fartos, cobertos por uma macia camada adiposa eram representações por oposição da escravaria. O moreno e o negro eram relegados à posição de trabalhadores braçais. Já nos anos 60 e 70 a figura de Leila Diniz, bronzeada, ousada em seus biquínis, era a representação do belo. Mulheres passaram a utilizá-la como modelo na busca por um corpo semelhante.

A massificação e a importação de modelos culturais hegemônicos separam ainda mais o brasileiro dele mesmo. Para Bosi (2003, p.320) “[...] os símbolos e os bens culturais não são objetos de análise detida ou de interpretação sistemática. Eles são vividos e pensados, esporadicamente, mas não tematizados em abstrato”. As estruturas de consolação a que Umberto Eco se refere e Bosi faz menção, para qualificar o sentido e manter a atenção de milhares de consumidores, aparecem nessa estratégia de dominação das mentes brasileiras no que cerca a questão do corpo e sua manutenção seguindo modelos pré-fabricados. Neste processo, outros símbolos são criados para controlar o modo de vida das pessoas (dietas) e para gerar lucros (remédios para emagrecer, academia). Essa cultura industrial em volta do culto ao corpo chocasse com a cultura erudita na medida em que a reprodução de modelos torna-se sua característica mais fundamental. É importante ainda como afirma Bosi (2003, p. 322) que não se tenha esperanças que esse quadro transforme-se:

“ Não se deve esperar da cultura de massas e, menos ainda, da sua versão capitalista de indústria cultural, o que ela não quer dar: lições de liberdade social e estímulos para a construção de um mundo que não esteja atrelado ao dinheiro e ao status”.

Considerações Finais

Se o culto ao corpo é, hoje, preocupação geral que atravessa todos os setores, classes sociais e faixas etárias, apoiado no discurso da estética e da preocupação com a saúde, a maneira como repercute no interior de cada grupo é imprevisível não dando margem para pressuposições de como se dará no futuro. Cuidar do corpo é muito bom, querer um corpo magro e belo também é bom, mas os limites que se tem ultrapassado para a conquista deste corpo é que devem ser avaliados e discutidos. A banalização do corpo na era contemporânea traz uma grande responsabilidade e a discussão totalmente válida à perspectiva antropológica.

O modernismo contemporâneo trouxe consigo o capitalismo desenfreado, onde tudo está à venda, incluindo o corpo. Como afirma Bosi (2003, p.329) “Não se pode, de resto, fugir à luta fundamental: é o capital à procura de matéria-prima e de mão-de-obra para manipular.

Referências Bibliograficas

BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo, Cia. das Letras, 1992.

STOLCKE, Verena.  Revista de Antropologia, v. 44, n. 2, p.7-37. 2001.

CASTRO, Ana Lúcia de. Culto ao corpo, modernidade e mídia. Campinas: Unicamp/FAPESP, 2002.

SILVA, A. M. Corpo, ciência e mercado: reflexões acerca da gestação de um novo arquétipo da realidade. Campinas: Autores Associados, Florianópolis: Ed UFSC,2001.

GOLDENBERG, MIRIAN. Nu E Vestido. Rio de Janeiro. Record, 2003.

VEJA: http://veja.abril.com.br/040298/p_062.html

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  • vilma: muito bom essa resenha preciso de mais

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