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Psicolinguística

Posted on: 25/12/2009

Por Abner Melanias

Ari Pedro Balieiro Jr, em seu artigo “Psicolinguística” contido no livro Introdução à Linguística, domínios e fronteiras, organizado por Fernanda Mussalim e Anna Christina Bentes, apresenta uma visão panorâmica do tema estruturando-o em subdivisões que compreendem i) uma introdução histórica, ii) discussão sobre os problemas e questões que envolvem a disciplina, iii) linhas de pesquisa e exemplificações e iv) os principais assuntos relacionados à Psicolinguística Aplicada.

Em sua primeira subdivisão, Introdução: as raízes e a evolução do campo, o autor procura localizar as origens e o progresso da disciplina que se baseia na questão central relacionada às duas ciências (Psicologia e Linguística): a relação entre o comportamento (pensamento) e a linguagem. Duas concepções surgem: a mentalista, que explorava o pensamento por meio do estudo da linguagem e a comportamentalista, que buscava entender o comportamento lingüístico, reduzindo-o a um processo de estímulo-reposta. Nesse período, estudiosos como Sausurre passam à abordagem científica da linguagem, ou mais precisamente, ao estruturalismo em face ao comportamentalismo.

A partir desse ponto Balieiro, explorará o que nomeia de período formativo, período lingüístico, período cognitivo e o período atual. No período formativo, o autor indica como a teoria da informação (fonte – transmissor/codificador – canal – receptor/decodificador – destinação) forneceu base epistemológica aos estudos psicolingüísticos. Dado o aumento das descobertas científicas faz-se necessário a confluência  de esforços entre os estudiosos das duas ciência e assim inicia-se o denominado período formativo, apoiado por dois seminários internacionais que organizaram e publicaram os achados, por volta de 1954. A partir disso, estava fundada a Psicolinguística.

Em seguida, no período lingüístico o autor mostra como os princípios fundamentais lançados por Noam Chomsky, no livro “Gramática Gerativa Transformacional” de 1957, somados a famosa resenha publicada dois anos depois sobre o livro “Verbal Behaviour” do comportamentalista Skinner, abalaram os fundamentos da Psicolinguistica por criticar o operacionalismo, presente nos trabalhos dos comportamentalistas como no dos estruturalistas. A guinada dos estudos no campo psicolingüístico acontece pois se adota o modelo chomskyano, que entre outras coisas defende que: a) as sentenças faladas tem origem na estrutura profunda e que emergem por meio de regras transformacionais, organizadas numa gramática, ou sintaxe, b) o componente sintático (a gramática universal, G.U) é capaz de originar  qualquer língua e c) distinguir competência (o conhecimento que um falante/ouvinte tem de sua língua) e a performance (atividade do mesmo indivíduo numa situação comunicativa concreta). No período cognitivo, como descreve Balieiro, as mudanças constantes e a consideração dos fatores semânticos e pragmático-discursivos ampliaram e enriqueceram a Psicolinguística inclusive por demandar a “subordinação” da linguagem a fatores cognitivos mais fundamentais, dos quais ela (a linguagem) seria apenas um fator. Em resumo, o paradigma cognitivo rejeitou a centralidade da gramática, afirmando que a capacidade cognitiva é apenas uma das manifestações da linguagem humana e também que outros sistemas cognitivos ou comportamentais não devem ser rejeitados na aquisição e no uso da linguagem. Ao abordar o período atual o autor afirma a influência do paradigma chomskyano em função das descrições sobre a competência linguística do falante, que supõem ou exigem o entendimento dos processos cognitivos que lhes são subjacentes. Além disso, Balieiro aponta a questão da realidade psicológica readquirindo status central na teoria psicolingüística e reivindicando seu poder explanatório sobre o “processamento da linguagem”, tornando-se meta clara da Psicolinguística.

A segunda subdivisão, Questões e problemas da psicolingüística, traz uma breve análise do autor sobre algumas questões práticas do campo e os problemas que podem gerar. Uma dessas questões refere-se ao método experimental que sugere relação casual entre as variáveis, porém as condições em que as experiências devem acontecer (como a certificação de que o falante está acordado e que falará certa coisa de certa maneira) restringem e limitam conclusões. Outra diz respeito ao processamento dos sinais acústicos da fala que sustenta a existência de processos mentais que o indivíduo dispõe para entender o que ouve, porém para cada distinto traço fonético é traçado muitas pista que devem ser analisadas no contexto em que aparecem. A questão sobre as unidades de significação ou o problema do léxico pressupõe que no processamento da fala seria disposto um dicionário mental onde estariam armazenadas as palavras. Entretanto, o que se discute está relacionado à estrutura deste léxico e o acesso a ele. De toda forma, é, segundo Balieiro, compatibilizar todos esses tópicos aos achados de outras teorias como Neuroligia e Neuropsicologia onde surgiriam restrições psicobiológicas.

Partindo para a terceira subdivisão, Alguns exemplos, Balieiro busca mostrar como a Psicololínguística procede quando enfrenta problemas de aplicabilidade para suas teorias. Sendo assim, o autor aponta para: 1) limitações quanto à definição de níveis de análise e elementos da Psicolinguística, 2) construção de um modelo de processamento representando as relações entre pensamento/linguagem e cérebro/mente, 3) um estudo experimental sobre a aprendizagem da segunda língua por adultos e 4) apresentação de uma alternativa à Teoria Gerativa, a teoria léxico-funcional da gramática.

O autor ainda reserva algum espaço em seu artigo para tratar, mesmo que de forma resumida, das Linhas alternativas ao mainstream, quarta subdivisão do artigo. Neste sentido apresenta Piaget e Vygotsky e suas concepções que não podem ser ignoradas no contexto atual. Um exemplo disso são as influências do primeiro nos trabalhos de Emília Ferreiro e os entendimentos de Vygotsky nos estudos conduzidos por psicólogos e educadores no Brasil. Outro ponto abordado é o tema relacionado à Psicolinguística Aplicada que se refere ao campo da ciência que se dedica a resolver a aplicabilidade das descobertas do campo.

Por fim, caminhando para conclusão, Balieiro desenha uma síntese de seu artigo onde aponta para um futuro em que a linguagem passa a ser entendida como processo simbólico, que opera símbolos e toma decisões baseadas em conhecimento armazenado e/ou deduzido deste.

Referências

MUSSALIN, Fernanda; BENTES, Anna Christina. Introdução à linguística 2. São Paulo:

Cortez, 2001.

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